Nada foi por acaso

Autor(es): Cristine Gentil

Correio Braziliense - 01/11/2010

 

especial - dilma rousseff

 

Já considerada a mulher mais poderosa do mundo, a presidente eleita está na política desde os 16 anos



1º de janeiro de 2011 cairá num sábado. Dilma Rousseff receberá do presidente Lula a faixa presidencial, desfilará em carro aberto, subirá a rampa do Palácio do Planalto e falará à nação de 190 milhões de almas. Uma Dilma feliz e emocionada como em poucos momentos de sua vida. Exibirá um sorriso largo, a face personificada de uma equipe vencedora, liderada por Luiz Inácio Lula da Silva, que não satisfeito em ser o primeiro operário eleito e reeleito para comandar o país e terminar o segundo mandato com mais de 80% de aprovação popular, conduziu a primeira mulher à presidência da República Federativa do Brasil.

No dia de sua posse, Dilma Vana Rousseff terá 63 anos e será a mulher mais poderosa do mundo, segundo já anunciava o jornal britânico The Independent seis dias antes do 1º turno da eleição. Entrará, então, para o rol dos políticos que têm impressa na biografia a marca do pioneirismo. Por aqui, sempre será comparada a Lula. No continente americano, a Barack Obama, o primeiro negro eleito para a Presidência dos Estados Unidos; antes dele, a Evo Morales, o primeiro índio a ocupar a presidência da Bolívia. Eles são parte da história por ter chegado a um posto de tal magnitude. Dilma também já é. E não é por um acaso qualquer, tampouco por uma questão de gênero.

Desde os 16 anos, é uma militante política. Lutou contra a ditadura, foi presa, barbaramente torturada, trabalhou em favor da anistia, ajudou a fundar o PDT, foi secretária de Fazenda e secretária de Minas e Energia no Rio Grande do Sul, ministra de Minas e Energia e ministra-chefe da Casa Civil. Se hoje acordou escorada nos votos da maioria absoluta do eleitorado de 135,8 milhões de brasileiros é porque seguiu à risca, com a obstinação que lhe é peculiar, o plano traçado e redesenhado no segundo turno    por Lula.

Dilma gosta de cumprir as tarefas que lhe são confiadas. Essa foi mais uma. Quem a conhece mais intimamente sabe que não foi uma simples vaidade que a fez substituir os óculos pelas lentes de contato, fazer duas plásticas, suavizar as sobrancelhas, moldar o cabelo à la Carolina Herrera estilista que inspirou o penteado criado pelo cabeleireiro Celso Kamura nem deixar de escolher sozinha o que veste. Para ela, cada um desses detalhes foi parte do trabalho. Assim como foram deveres de ofício as horas intermináveis de gravação de programas eleitorais, o desafio de aprender a encarar a câmera, o esforço para acentuar o uai em certas ocasiões, o quase morrer de nervoso nos debates, os mais de 30 discursos país afora, o ter de gritar em alguns momentos e o ter de calar em outros.

Durante 120 dias de campanha eleitoral, Dilma foi do almoço chique na casa de Lily Marinho, que reuniu o high society e personalidades da área cultural, à Feira de São Cristóvão no Rio de Janeiro, de encontros com empresários em São Paulo ao agreste pernambucano. Ouviu elogios, trocou abraços e recebeu todo tipo de crítica. Ganhou seguidores e, mais ainda, perseguidores, inclusive virtuais. No Orkut, 649 comunidades mencionam seu nome 24 delas resvalam para o humor, satirizando a ex-ministra, sobretudo, com o rebolation. As 269 que falam bem enaltecem o fato histórico de uma mulher chegar à Presidência da República, quase oito décadas depois de o Brasil ter permitido o voto feminino. As outras 356 são agressivas. Criticam o seu passado, chamando-a de terrorista, e dizem que ela é a favor do aborto, da morte de criancinhas e contra as religiões cristãs.

Tais argumentos, de certa forma incorporados à plataforma de campanha de seu oponente, José Serra (PSDB), e disseminados pela internet são apontados como parte importante no processo que adiou a vitória da petista. A onda verde de Marina Silva e o chamado caso Erenice são os outros vértices do triângulo responsável por um ruidoso e desgastante segundo turno. Dilma precisou suavizar o discurso; disfarçar, sim, sua posição em relação ao aborto; abrigar em sua equipe até o falastrão Ciro Gomes, franco atirador verbal que não poupou críticas ao governo Lula no período pré-eleitoral. Tudo parte de uma estratégia. Mas isoladamente nada disso configurou-se um sacrifício descomunal.

Ao longo dos meses que antecederam a eleição, a filha do imigrante búlgaro Pétar Russev ou Pedro Rousseff, nome que adotou depois de ser naturalizado brasileiro   e da professora Dilma Jane Silva já havia incorporado mudanças substanciais para caber no molde do marqueteiro João Santana, a quem coube conduzir a metamorfose de Dilma ministra-chefe da Casa Civil para a Dilma candidata. Desde o fim de 2007, o presidente Lula já cogitava intimamente fazer dela sua sucessora. Em setembro de 2009, o projeto já estava consolidado, inclusive entre os assessores.

Ela era a pessoa mais próxima do presidente, havia mostrado competência enorme na gestão, desde o Ministério das Minas e Energia, quando implementou toda a política energética do governo. Depois, na Casa Civil, com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e o Minha Casa, Minha Vida. O presidente passou a receber as coisas prontas, com os problemas resolvidos, e só colhia os louros, analisa uma pessoa que trabalhou nessa época no governo.

Diante desse histórico, não restou muita opção ao PT a não ser aceitar o que queria Lula. Ela foi imposta goela abaixo do PT, já que José Dirceu e Antônio Palocci estavam fora. Apesar da experiência e da visibilidade que ganhou na Casa Civil, havia a dúvida de que Lula conseguiria transferir sua popularidade para ela. Mas Dilma se preparou e conseguiu, avalia o cientista político David Fleischer, da Universidade de Brasília (UnB). Para o ex-presidente do PT Ricardo Berzoini, se houve resistência ao nome dela, foi pontual. Depois, foram dois anos de preparação. Reuniões semanais para definir prioridades, conteúdo programático da campanha, agenda e, sobretudo, estratégias para dar à Dilma uma feição mais próxima daquela admirada pelos amigos    que a descrevem como uma pessoa agradável, extremamente solidária, leal, idealista, com imensa capacidade gerencial e de vastíssima cultura.

Imagem oposta à comentada nos corredores dos ministérios, segundo a qual a futura presidente tem temperamento irascível, capaz de humilhar publicamente de subalternos a autoridades. Dilma costuma reagir com ironia a esse estereótipo, dizendo que é uma mulher dura cercada de homens meigos, numa clara referência ao machismo que a rotula. Não foi à toa, no entanto, que ganhou desafetos. Antes de algumas reuniões, sobretudo as do PAC, era comum a previsão de chuvas e trovoadas. Dilma odeia a imobilidade do serviço público, o não cumprimento de prazos, a ineficiência. E, diante disso, se altera com frequência.

Dilma Rousseff

É claro que uma pessoa que recebe um esporro em público não fica satisfeita e vai sair falando. Mas dificilmente vê que ela não cumpriu o que foi pedido e que o pedido era viável, resume um ex-funcionário. Ninguém nega o temperamento forte da ex-ministra, embora muitos o justifiquem. Ela é firme nas decisões, mas não é intempestiva. É extremamente dedicada, trabalha muito e gosta de aprofundar tudo, declara o deputado Cândido Vaccarezza, líder do governo na Câmara dos Deputados.

Ser detalhista é outra característica de Dilma Rousseff. O vice-governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão, ilustra: Numa das reuniões sobre o Pan-Americano, ela cismou com o preço da Pira Olímpica. Discutiu até a exaustão. Resultado: o Pan foi um sucesso e a pira só custou um quinto do preço. Na avaliação de Pezão, que participou de inúmeras reuniões com Dilma, a chamada mãe do PAC é uma especialista em destravar processos burocráticos, fazer as coisas andarem. Foi por isso que, à frente do programa federal que reuniu projetos estratégicos, conseguiu dar visibilidade ao governo Lula e consolidou sua imagem de excelente técnica embora já tenha sido criticada por atropelar licenças ambientais e por ter implantado um modelo energético que está longe de ser unanimidade. Quanto ao argumento de que ela não tinha traquejo político, Lula tranquilizava: Ela aprende.

O diagnóstico de câncer no sistema linfático, em abril de 2009, lançou dúvidas sobre a sua candidatura. Dilma comunicou publicamente a doença e mergulhou no tratamento sem desocupar a mesa de trabalho.  Quando ela viu que podia se curar, adquiriu força e energia e partiu para a cura. Ela é muito determinada, testemunha o advogado Carlos Araújo, companheiro de vida por 30 anos, pai de sua única filha, Paula, e grande amigo até hoje. Desde 2000, quando o casamento acabou, Dilma não assume publicamente relações amorosas. Mas, ao que parece, sua vida afetiva é bem nutrida por amigos, muitos de longa data, como a socióloga Lícia Peres.

Conheceram-se nos anos 1970, quando Dilma já havia saído da prisão e ajudava a organizar o movimento pela anistia. Lícia era casada com o jornalista e político Glênio Peres, um companheiro de militância política de Carlos Araújo, segundo marido de Dilma. Ela me convidou para ser a presidente do movimento feminino pela anistia do Rio Grande do Sul. Eu aceitei e ficamos amigas. Esteve presente em todos os momentos difíceis da minha vida. Na cassação de Glênio, na morte dele e quando adoeci gravemente (de câncer) em 1991, conta Lícia. Para que a amiga pudesse fazer um exame, Dilma conseguiu abrir uma clínica num fim de semana.  Ela me disse: Você não vai aguentar ficar com essa dúvida até segunda-feira. Dilma não só escuta, ela age para ajudar, vai a fundo.

Dos momentos difíceis às viagens que fizeram juntas à Europa e aos Estados Unidos, as lembranças de Dilma e Lícia rendem boas histórias, compartilhadas sempre que uma pausa na agenda permite à ex-ministra visitar Porto Alegre, onde mora o ex-marido, a filha, o neto, nascido em setembro, e alguns dos amigos. Eventualmente, a mãe, a vigorosa dona Dilma também está lá, embora more em Belo Horizonte. Com Lícia, Dilma gosta de jantar fora, de preferência para se refestelar com uma boa massa. Um menu de exceção na alimentação normalmente regrada.

Quando ministra, costumava almoçar no trabalho. No cardápio, salada, arroz integral e alguma carne. Para beliscar, gosta de uva passa, damasco seco, queijo grana padano. É considerada uma pessoa simples nos gostos, mas refinada do ponto de vista intelectual. Lê compulsivamente, e faz isso desde muito jovem.

O pai é apontado como o responsável por incutir a literatura na vida da filha. Morreu em decorrência de diabetes quando Dilma tinha 14 anos. Nessa época, ela já havia lido Germinal, de Émile Zola, que retrata as condições subumanas a que eram submetidos os trabalhadores em minas de carvão francesas, e Humilhados e ofendidos, de Fiódor Dostoiévski, conforme consta na biografia do site de sua campanha. Os clássicos humanistas ajudaram a compor sua visão de mundo e também a levaram ao movimento estudantil. Líamos tudo, Sartre, Simone de Beauvoir, Dostoiévski, João Cabral de Melo Neto, livros históricos sobre o Brasil e a América Latina e também os livros políticos, lembra Cláudio Galeno Linhares, primeiro marido da presidente eleita.

Os dois se conheceram no Colégio Estadual Central, onde Dilma entrou às vésperas do golpe militar de 1964. A escola e, depois, a Universidade Federal de Minas Gerais, onde começou a cursar economia, eram celeiros culturais e políticos de Belo Horizonte. Havia uma curiosidade intelectual grande. Tinha música, cinema, literatura, éramos a jovem vanguarda e queríamos um país mais justo, define Galeno. Quando ele e Dilma tiveram o primeiro flerte com a Polícia Operária, a Polop, organização em que iniciaram a militância contra a ditadura, estavam na companhia do músico Márcio Borges.

Um amigo nosso, mais velho, levou a gente para um barzinho. Tinha um clima meio existencialista, pequeno, esfumaçado, com Miles Davis na vitrola. Teve mais cerveja e risada que política, recorda-se Márcio. O máximo que fazíamos, então, era assaltar a geladeira dos nossos pais para as festinhas dançantes que fazíamos. Márcio, a quem Dilma chamava de Marcinho Godard por conta da paixão do amigo pelo cinema foi lutar contra a ditadura em outras hostes, numa tropa musical que viria a fundar o Clube da Esquina, o mais importante movimento musical mineiro.

Já Dilma e Galeno entraram de cabeça na luta contra a ditadura. Dali em diante, ela viveria uma década sob o regime de exceção, ora como clandestina em organizações como a Polop, a Colina e a VR-Palmares, ora como presa política acusada de subversão. Casou-se com Galeno, caiu na clandestinidade, apaixonou-se pelo seu segundo marido, Carlos Araújo, então advogado e militante gaúcho. Na tarde de 16 de janeiro de 1970, Dilma foi presa e torturada seguidamente nos porões da Operação Bandeirante (Oban) e do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), em São Paulo. Condenada a dois anos e um mês, só seria libertada depois de quase três anos. Em entrevista ao Correio Braziliense, em 2009, ela resumiu os efeitos da tortura: Não tem nada mais grave do que desonrar a pessoa e deixar ela viva.

Dilma sobreviveu. Saiu da prisão e seguiu para Belo Horizonte, cidade onde nasceu em 14 de dezembro de 1947. Passou o Natal com a mãe e, no ano seguinte, mudou-se para Porto Alegre, onde moravam os sogros e onde o marido cumpria pena de quatro anos. Araújo foi libertado em 1974 e retomou a advocacia. Dilma entrou na Universidade Federal do Rio Grande do Sul para se graduar em economia. Em 1976, nasceu Paula Rousseff Araújo, sua única filha. O casal engajou-se na luta pela anistia e na fundação do PDT no Rio Grande do Sul. Entre 1980 e 1985, Dilma trabalhou no partido e ajudou a eleger o marido a deputado estadual em 1982. Carlos Araújo seria reeleito por mais dois mandatos consecutivos.

Em 1986, Dilma foi convidada por Alceu Collares, eleito prefeito, para o posto de secretária de Fazenda. Trabalhou ainda na Fundação de Economia e Estatística (FEE), órgão do governo gaúcho. Ela tinha uma presença importante, um profundo conhecimento técnico e sempre foi uma ativista, teve um papel forte na construção do partido. Era extremamente exigente, assumia os compromissos, mas sempre teve esse sentido de servir às pessoas, diz Collares, que, já como governador, a nomeou secretária de Minas e Energia.

Dilma ocupou a mesma pasta no governo de Olívio Dutra, do PT, que abrigou o grupo de desertores do reduto de Leonel Brizola, ela, inclusive. Começava ali a sua história no PT, partido que sempre a viu como uma técnica. Foi justamente como uma especialista que Dilma, já com a fama de ter evitado um apagão energético e o racionamento no Rio Grande do Sul, entrou numa reunião, com seu computadorzinho debaixo do braço, em que estava Lula. Sobressaiu-se entre os presentes e passou a integrar a equipe de transição que preparava o primeiro mandato petista. Depois disso, foi um salto para ganhar o posto de ministra e os primeiros desafetos no governo, que havia prometido a pasta para o PMDB, partido do seu atual vice, Michel Temer.

Sua trajetória no governo Lula tem duas marcas fortes: a competência e o gênio difícil. Há quem considere duplo exagero. Alguns acham que seu comportamento é autoritário e sua competência, superestimada. Outros estão em êxtase com sua eleição. Para o cientista político e professor da Universidade de São Paulo Emir Sader, Dilma é a política mais competente que o Brasil já teve. Ela não é Napoleão, não é arbitrária. Ela se legitima pela eficiência, atesta.

Em sua análise, cita um fato que considera incontestável: Até o governo Lula, o Brasil era o país mais desigual do continente mais desigual do mundo. Hoje, 28 milhões de pessoas saíram da miséria. Emir Sader é organizador, junto com o vice-presidente do PT e coordenador do programa eleitoral dela, Marco Aurélio Garcia, do livro Entre o passado e o futuro, que reúne reflexões que traduzem as bases do pensamento político e econômico do lulismo.

Nele, há um artigo de autoria do economista Nelson Barbosa, alçado à Secretaria de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda. Alguns apostam que ele terá espaço garantido no futuro governo. Outro nome provável é Graça Foster, diretora de gás e energia da Petrobras, primeira mulher a ocupar um cargo de primeiro escalão na empresa. Na cota pessoal da futura presidente, credita-se o assessor Giles Azevedo, tido como responsável por sua agenda, e o presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, Alessandro Teixeira, redator do programa de governo   os dois oriundos do PT gaúcho. Além deles, o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel, amigo dos tempos de militância, que só se afastou da campanha devido à denúncia do suposto dossiê com gastos pessoais do ex-presidente Fernando Henrique, que teria sido elaborado pela equipe da então ministra.

Aliás, há quem acredite que esse caso não só não interferiu na campanha, como serviu para testar sua capacidade de responder politicamente. Em especial, quando, convidada para prestar esclarecimentos numa comissão do Senado, ouviu do senador Agripino Maia (DEM) uma provocação. Ele perguntou se ela não estaria mentindo, como fez na época ditadura, referindo-se a uma entrevista da ministra em que ela confessava ter mentido sob tortura. Vale reproduzir parte de sua resposta: Eu tinha 19 anos, fiquei três anos na cadeia e fui barbaramente torturada. Qualquer pessoa que ousar dizer a verdade para interrogadores entrega pessoas para serem mortas. Eu me orgulho muito de ter mentido porque mentir na tortura não é fácil. Agora, na democracia, se fala a verdade; diante da tortura quem tem coragem e dignidade fala mentira para não colocar em risco a vida de seus iguais. Na democracia, estamos em igualdade de condições humanas e materiais, não estamos num diálogo entre meu pescoço e a forca.

Outro episódio, no entanto, já nas barbas da eleição, afetou a campanha e a própria Dilma: o escândalo envolvendo Erenice Guerra, que a sucedeu na pasta mais estratégica do governo Lula, que, apesar de preferir Miriam Belchior para o cargo, cedeu à vontade da ministra. Essa foi a lição mais dura. Do mesmo jeito que Dilma é rigorosa com os outros, é também com ela própria. Deve estar se cobrando muito por ter confiado em Erenice, aposta um colaborador. Alguns, ao contrário, arriscam que a ex-ministra tinha indícios fortes do que estava ocorrendo na Casa Civil. Apesar disso, não chegam a colocar à prova sua honestidade.

Em outras situações, a ética pública de Dilma esteve em xeque: quando a ex-diretora da Anac Denise Abreu e a ex-superintendente da Receita Federal Lina Vieira a acusaram de favorecer interesses privados. Depois, já na campanha, o vazamento de dados fiscais da família do tucano José Serra atingiu a campanha petista. Mas nenhuma das denúncias prosperou a ponto de fazer naufragar a frota petista. De todo modo, a corrupção é um buraco negro no governo e no PT.

Seu desafio, agora, não é exatamente se desvencilhar de acusações. Para o Brasil seguir mudando, como tanto prometeu, haverá de conciliar aliados do PT e não são poucos: PMDB, PDT, PSB, PCdoB, PRB, PTN, PSC, PR, PTC , construir 2 milhões de moradias, 6 mil creches e 10 mil quadras cobertas em escolas, aumentar o emprego formal, modernizar o transporte público, criar 500 unidades de pronto atendimento de saúde 24 horas, escolas técnicas, entre vários outros pontos propostos em seu programa. Vai conseguir, aposta Marco Aurélio Garcia. Ela tem um compromisso com a política de natureza vital. Passou por uma mudança pessoal grande, é muito disciplinada e tem um sentido de responsabilidade. Ele afirma que a eliminação da miséria no Brasil é o que move a futura presidente. Mas sabe que ela terá de aprender a mexer a cintura para adquirir maleabilidade política.

Agora, o país vai redescobrir Dilma Rousseff, arrisca Ângela Gutierrez, presidente do Instituto Cultural Flávio Gutierrez. Dilma é uma mulher obstinada, corajosa, que persegue os objetivos, que sabe ouvir e tem uma profunda visão humanística do mundo, define a amiga, que em março deste ano reuniu um grupo de mulheres em sua casa, num jantar em homenagem à então pré-candidata. Maria Inês Martins Azevedo, 64 anos, colega da época do Colégio Sion e vizinha na rua Major Lopes, estava lá. Você pode virar presidente do Brasil, mas vou continuar te chamando de Dilminha, derramou-se Ieiê, emocionada com o reencontro, depois de quase três décadas de notícias esparsas uma da outra.

As duas tiveram contato diário até a adolescência. Ieiê, Dilma e seus irmãos, Igor e Zana (já falecida), foram educados dentro dos princípios da tradicional família mineira e de classe média. Ao longo da vida, a futura presidente acumulou um patrimônio de R$ 1.066.347 em imóveis, joias, objetos de arte uma de suas maiores paixões , entre outros. Guardou muitos amigos também, como Ieiê, que levou fotos de infância ao jantar em homenagem à futura presidente. Vendo as imagens e revendo pessoas queridas, é certo que Dilma quis visitar o passado.

Logo no início da campanha, em viagem a Belo Horizonte, ficou algumas horas numa livraria com Marcinho Godard, aquele do Colégio Estadual Central, fundador do Clube da Esquina. Lembrou de histórias que nem ele mais se dava conta. Foi dela a primeira audição da música Vera Cruz, parceria do amigo com Milton Nascimento. Foi uma viagem de memórias afetivas, nada de política. Márcio se surpreendeu com a riqueza de detalhes com que ela lembrava do dia em que ele descreveu, em êxtase, seu curta Joãosinho e Maria, premiado ensaio surrealista inspirado na estética de Luis Buñuel, cujos negativos sumiram na época da ditadura. Aquele foi o melhor filme que não vi, ela me disse. Dilma estava errada. O melhor filme que ela não viu começa neste 1º de janeiro de 2011.


Não se promove uma política de universalização sem subsidiar: é impossível no Brasil. Há elementos que compõem o custo do Estado, que devem ser feitos constando claramente do Orçamento. Saneamento, por exemplo, quem investe é o Estado
Dilma Rousseff em entrevista a Emir Sader e Marco Aurélio Garcia no livro Brasil entre o passado e o futuro (Boitempo Editorial)


Estou me sentindo ótima. Tenho senso crítico, né? Estou mais parecida comigo aos 40 do que aos 60. Não cheguei aos 30, que era meu sonho de consumo
Sobre a cirurgia plástica, em entrevista à revista Marie Claire


O Brasil está preparado para eleger uma mulher, para eleger um negro, para eleger, como já elegeu, um metalúrgico. Somos um dos países que têm hoje maior tolerância. Não que não haja um longo caminho a ser trilhado no que se refere a direitos iguais das mulheres, dos negros, do tratamento dos índios
Em entrevista ao Correio Braziliense


Para o Brasil seguir mudando, precisamos aprofundar a nossa democracia, aperfeiçoando e valorizando nossas instituições. Unir o melhor das nossas energias para fazer a reforma política. Quero dizer com todas as letras aos partidos políticos e ao país: não dá mais para adiar a reforma. Ela é uma necessidade vital para corrigir equívocos, vícios e distorções
No discurso feito aos militantes partidários na convenção que a escolheu candidata do PT

 
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