9 de Agosto-Dia Internacional dos Povos Indígenas
9 de Agosto-Dia Internacional dos Povos Indígenas
País Afora
Cesar Teixeira
ubinet Ka’apor, 38 anos, foi
assassinado a pauladas no município
Centro do Guilherme a
mando de fazendeiros que praticam
a extração ilegal de madeira na Terra
Indígena Alto Turiaçu. Enquanto jorra o
sangue dos filhos da floresta, o lucro fácil
dos madeireiros se apóia nas dificuldades
do governo federal em controlar as
invasões sem contrariar os interesses da
política ficha-suja do país.
Um grupo de índios Ka’apor esteve
em São Luís (MA) no dia 27 de maio, com
o apoio do Cimi Regional Maranhão, para
denunciar junto à Procuradoria Geral da
República e à Polícia Federal o aumento
de invasões e o agravamento da violência
dos madeireiros contra as comunidades
da Terra Indígena Alto Turiaçu, incluindo
assassinatos de lideranças.
O cacique Rerõe Ka’apor, da aldeia
Axinguirená, relatou que no dia 17 de
maio procurava por seu parente Hubinet
Ka’apor, de 38 anos, que havia ido ao
Centro do Guilherme fazer compras. A
liderança foi, então, informada que seu
parente havia sido assassinado a pauladas
nas imediações da cidade por desconhecidos
que estavam num bar junto a uma
ponte, e depois jogado no rio.
O cacique encontrou o corpo enterrado
de cabeça para baixo, tendo em seguida
avisado à Polícia Militar, que recolheu
a vítima e a conduziu ao necrotério do
Centro do Aguiar. Rerõe levou o cadáver
para a aldeia, mas não sabe informar
se foram realizados exames ou perícia.
“Ninguém foi preso até agora, isso não é
justo”, acrescentou.
A denúncia sobre o aumento da invasão
madeireira e o assassinato do índio
Hubinet Ka’apor já havia sido feita três
dias antes ao Ministério Público Federal
do Pará pelo cacique Valdemar Ka’apor,
da aldeia Xiepihurená, tendo em vista
a proximidade de Belém com a reserva
indígena.
Razões para matar
Segundo o cacique Valdemar, tradutor
do grupo indígena, dias antes do crime
houve uma discussão entre moradores
da aldeia Axinguirená e um madeireiro
da região, que os ameaçou de morte. A
ameaça aconteceu porque no mês de abril
os indígenas tomaram por duas vezes
armas e motosserras de empregados do
madeireiro que retiravam ilegalmente
madeira da reserva.
Para os índios Rerõe, Faustino Rossi
e Itahu, que vieram a São Luís fazer a
denúncia acompanhados pelo cacique
Valdemar, esta teria sido a verdadeira
causa da morte do índio Hubinet Ka’apor.
Eles esperam que os orgãos federais
tomem providências para acabar com
o clima de violência que se alastrou nas
áreas indígenas.
“Nós precisamos de justiça, por isso
a gente fica se arriscando aqui e acolá.
Se não tivesse órgãos de justiça, a gente
mesmo poderia matar e morrer até o
fim, mas como existe a justiça, viemos
pedir proteção às autoridades”, resume
Valdemar.
Comércio indecente
A violência decorrente da extração
ilegal de madeira há anos aterroriza o
povo Ka’apor, mesmo com a demarcação
de sua terra, homologada em 1982, com
uma área de 530.520 hectares. Desde fins
de 1980, cerca de um terço da área tem
sido devastada por madeireiros, cedendo
lugar a pastagens e povoados clandestinos,
para onde aflui toda a sorte de gente,
abalando a tranqüilidade das 12 aldeias,
com cerca de 1.600 pessoas.
Em 1999, as matas da aldeia Xiepihurená
começaram a ser sistematicamente
invadidas por peões de sete serrarias
(atualmente são 12) instaladas no entorno.
A situação se prolongou até 2001.
Pistoleiros chegaram a manter 60 índios
prisioneiros durante vários dias, o que
motivou ação conjunta do Ministério
Público Federal e da Polícia Federal, que
ali manteve durante dois anos uma base
para afastar os infratores.
Depois disso, a violência na região
continuou, pois os grileiros parecem
imunes às leis que garantem a integridade
das reservas indígenas. Entre eles, o
fazendeiro Antonio Chaves, dono da Fazenda
Mercantil, que ocupa parte da Terra
Indígena Alto Turiaçu e Awá-Guajá. Apesar
de estar sendo processado judicialmente
pelo Ministério Público Federal, Chaves
insiste na devastação da reserva.
Em fevereiro de 2008, nova denúncia
foi encaminhada ao MPF, em São Luís,
registrando a entrada de madeireiros
pelas fronteiras com os municípios de
Maracaçumé, Centro do Guilherme, Santa
Luzia do Paruá e Zé Doca, neste caso tendo
como bases os povoados Ebenezer e
Vitória da Conquista, incrustados dentro
da área Terra Indígena Awá-Guajá, homologada
em 2005.
As invasões concentram-se nas aldeias
Axiguirendá e Ximborendá – além dos
povoados Maronata e Xapu, na área Guajá
– e seus protagonistas comercializam
à luz do dia, sem nenhum impedimento,
madeiras nobres com as serrarias e fábricas
de compensados como a Rio Concrem
Industrial Ltda., com sede no município
de Dom Eliseu, no Pará.
As faces da polícia
Os Ka’apor também denunciam
Josimar Cunha Rodrigues, prefeito do
município de Maranhãozinho. Além de
praticar crimes ambientais na sua própria
cidade (derrubando árvores e ocupando
espaços públicos), o prefeito incentiva
a invasão da reserva com o propósito
de cobrar pedágio dos madeireiros que
saem de lá nos caminhões, ameaçando
denunciá-los ao Ibama e à Polícia Federal,
caso se neguem a pagar.
Já em Centro do Guilherme, em outubro
de 2009, a PF fechou um garimpo
existente nas terras Ka’apor, às margens
do Rio Gurupi, numa operação conjunta
com o Ibama, a Funai, a Polícia Militar
e Força Nacional. Oito pessoas foram
presas, entre elas o vice-prefeito do município,
Francisco Pedro Monroe, acusado
de ser o responsável pela área.
Valdemar Ka’apor afirma que, muitas
vezes, as equipes da PF enviadas para a
região são cooptadas pelos fazendeiros,
que lhes oferecem dinheiro, bebidas e
mandam matar cutia, bode, carneiro e
outros animais para fazer churrasco. “Enquanto
a polícia dorme, os madeireiros
entram e saem durante a noite levando
a madeira que ficou escondida na mata”,
desabafa o cacique.
No rastro dos madeireiros também
são atraídos para a terra indígena uma
infinidade de cipoeiros, plantadores de
maconha e caçadores. Valdemar Ka’apor
se refere ainda ao tráfico de plantas medicinais,
aves e outros animais silvestres,
como japeçocas, mutuns, jacus, papagaios,
cutias, macacos e antas.
Para os índios Ka’apor, o desperdício
promovido pela derrubada de árvores
nativas, o tráfico de animais e de outros
bens arrancados à força da floresta é,
seguramente, como um atestado de
óbito antecipado da Terra Indígena Alto
Turiaçu.
Silêncio, por uma boa causa
O procurador geral da República no
Maranhão, Alexandre Silva Soares, tem
recomendado ao Ibama prioridade em
casos envolvendo crimes ambientais e
a integridade dos povos indígenas, e
informa que ações concretas estão em
andamento nas terras Araribóia, Caru,
Awá-Guajá e Alto Turiaçu. Mas admite
haver limitações orgânicas nas medidas
adotadas pelos órgãos federais. “Nem
sempre os resultados são os esperados”,
comenta.
Com relação ao homicídio de indígenas,
lamenta as dificuldades na apuração
dos casos, quando as polícias locais não
tomam as providências devidas, pois a PF
só chega alguns dias depois nas áreas afetadas,
muitas delas de difícil acesso. No
caso do assassinato de Hubinet Ka’apor,
propôs a instauração de um inquérito
policial federal e uma ação conjunta
dentro da área.
Para o procurador é preciso ter atenção
com a aproximação da imprensa. “A
imprensa costuma desvirtuar informações,
criminalizando os índios e quase
sempre se colocando de forma contrária
aos seus interesses”.
Promovida pelas grandes redes de
comunicação, a demonização dos povos
indígenas está ligada aos interesses políticos
e econômicos de privatização da
Amazônia, ao monopólio de terras, ao
agronegócio e à comercialização de madeira,
celulose, minérios e carne bovina,
com o aval dos ruralistas especuladores
que lotam o Congresso Nacional, entre
outros fichas-sujas existentes no país.
Última atualização (Seg, 02 de Agosto de 2010 22:29)



