Assassinatos de indígenas

Ano de 2008

Há uma estreita relação entre a falta de

demarcação de terras e a violência que os povos

indígenas enfrentam. A situação encontrada no

Mato Grosso do Sul confirma esta regra.

Em comparação com o ano de 2007, em que foram

registradas 92 vítimas, o número de assassinatos diminuiu

35%. No entanto, analisando o período entre 2003

e 2008, observa-se que o número de assassinatos de

indígenas continua elevado. Até 2005, a média anual

era de 41 assassinatos no país inteiro. Esta situação,

já grave, piorou depois 2005, com 58 vítimas em 2006,

92 em 2007 e 60 em 2008, o que constitui uma média

anual de 70 assassinatos.

Das vítimas de assassinato em 2008, 46 eram

homens ou meninos, 11 vítimas eram mulheres ou

meninas, e em 3 casos não se divulgou o gênero das

vítimas. Em 3 casos, as vítimas foram estupradas

antes de serem assassinadas.

Dentre os assassinatos registrados em 2008, 39

foram – ou há suspeita de que tenham sido – praticados

por indígenas; 6, por não-indígenas e em 14

casos a autoria é desconhecida. Em um caso, um

assassinato ocorrido depois de um estupro, os executores

eram indígenas e não-indígenas.

Dos assassinatos, 13 foram resultado de brigas

envolvendo pessoas que estavam alcoolizadas. Em 12

casos, os assassinos foram familiares da vítima, como

esposo, esposa, sogro e sobrinho. Houve inclusive

uma briga entre dois irmãos, que resultou na morte de

um deles. Vingança foi o motivo do assassinato em 8

casos.

Nos assassinatos predomina o uso de armas

brancas, em 32 casos, usadas, geralmente, por indígenas.

Houve 11 casos de espancamento, inclusive

com uso de pedaços de madeira ou pedra. Usou-se uma

arma de fogo em 7 casos (4 vezes por não-indígenas),

houve 3 casos de asfixia ou enforcamento. Em 5 casos,

o meio usado ficou desconhecido ou não divulgado.

60

 

 

apítulo II

Assassinato

Um caso chama atenção pela arma usada, entre

outros elementos. É o assassinato de uma menina

Xavante que sofria de problemas neurológicos e

motores, na Casa de Assistência ao Índio (Casai)

em Brasília. Ela morreu em função de uma parada

cardíaca durante uma operação para salvá-la de uma

hemorragia causada por uma empalação (inserção de

um objeto pontiagudo em seu órgão genital). A investi

 

gação

policial não identificou os autores do crime.

Chama atenção o motivo do assassinato de José

Cícero Salistiano, do povo Xukuru-Kariri. Este crime,

provavelmente, foi motivado por vingança e intimi

 

dação

por parte de narcotraficantes que atuam dentro

da terra indígena, pois o pai da vítima os denunciou à

polícia. O assassinato do Truká Mozeni de Araujo de

Sé, que era candidato a uma vaga de vereador, com

muitas chances de ser eleito, está envolto por procedimentos

estranhos, na medida em que somente um

agressor foi preso, sendo 5 os envolvidos no crime.

Merece destaque também, o assassinato de um

jovem Guarani Kaiowá por um policial. A polícia alega

resistência da vítima, resultando num confronto.

Em Pernambuco, houve o ataque ao ônibus que

transportava professores Pankaruru em viajem para o

encontro anual de professores indígenas do estado. O

ônibus foi alvejado e José Rogério de Souza recebeu

um tiro que o matou.

Também chama atenção o assassinato da menina

Guajajara, de seis anos, por motoqueiros encapuzados,

que invadiram a aldeia, atiraram contra casas e

atingiram a criança na cabeça. A situação dos Guajajara

no Maranhão continua preocupante. Na região, a

tensão motivada por conflitos de terra e pela intensa

atuação ilegal de madeireiros nas terras indígenas

continua grande. Há constantes ameaças, intimidações

de indígenas, invasões de aldeias e tiros contra

as casas dos Guajajara.

Mato Grosso do Sul

O contraste extremo entre o Mato Grosso do Sul

e os demais estados do Brasil merece uma análise

específica. Observa-se que o número de assassinatos

tem crescido desde 2003, tanto em termos absolutos,

quanto em termos relativos.

Analisando os números, pode-se concluir que

entre 2003 e 2005, o número de assassinatos no Mato

Grosso do Sul cresceu, enquanto o registro de assassinatos

nos demais estados do país decresceu. Em

2006, ficou constante. Já em 2007, quando o número

de assassinatos no restante do país aumentou 30%,

no Mato Grosso do Sul esse índice aumentou 89% -

quase três vezes mais. Em 2008, quando o número

de assassinatos no restante do país diminuiu 54 %, a

diminuição no Mato Grosso do Sul foi de 21 %. Deduzse

daí que dos assassinatos de indígenas em 2008

no Brasil, 70% dos casos ocorreram no Mato Grosso

do Sul. Percebe-se, portanto, que a realidade violenta

das comunidades no Mato Grosso do Sul se intensi

 

ficou

nos últimos seis anos.

O que pode explicar esse crescimento durante

esses anos e quais são as fatores que diferenciam

Mato Grosso do Sul dos demais estados?

Nos relatórios anteriores, constata-se uma estreita

relação entre a falta de terra e a violência ou, mais

especificamente, entre a falta de demarcação de terras

indígenas e violência. Mato Grosso do Sul não escapa

a esta regra.

Observe-se que neste estado existem comuni

 

dades

Guarani Kaiowá populosas, que vivem confi

 

nadas

em pequenas parcelas de terra. Nos últimos

anos, o confinamento tem se intensificado, por causa

do avanço dos latifúndios agrícolas, sobretudo as

plantações de soja e da cana-de-açúcar, o que acirra

o conflito de terra. Há uma resistência muito grande,

em todas as camadas da sociedade não-indígena,

contra qualquer processo de regularização das terras

Guarani Kaiowá. Essa resistência tende a crescer e

se soma a um forte preconceito e racismo contra os

indígenas. Além disso, as oportunidades de emprego

diminuíram e, nos empregos restantes, sobretudo o

corte de cana, as condições de trabalho e o salário

pioraram. O quadro se completa por falhas e faltas nas

áreas de educação, saúde e assistência social para os

povos indígenas.

Em suma, os Guarani Kaiowá vivem confinados,

numa situação de desemprego, pobreza, fome e falta

de perspectivas, numa sociedade que os desrespeita,

Assassinatos nrasil e no Mato Grosso do Sul

Ano 2003 2004 2005 2006 2007 2008

Capítulo II

Assassinato

rejeita e tenta coibir a conquista de seus direitos à

terra. Essa situação provoca grandes tensões psicológicas

e sociais nas comunidades e tem como uma das

conseqüências o alto índice de consumo de álcool.

Isto revela uma combinação violenta e muitas vezes

fatal, como testemunham os altos números de assassinatos

e tentativas de assassinato. O elevado número

de suicídios, que aumentou de 28 em 2007 para

34 em 2008, completa esse quadro desolador e extremamente

violento.


FONTE: CIMI/Jornal Porantin


 

 
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