Do Instituto Sangari

MAPA DA VIOLÊNCIA 2010: ANATOMIA DOS HOMICÍDIOS NO BRASIL

No ano de 1998 publicou-se o primeiro

Mapa da violência1. Pretendia-se, com esse

trabalho, realizar uma leitura social das mortes violentas na juventude brasileira. Com esse

propósito, atualizamos dados decenais sobre a mortalidade por causas violentas no país. Mais

quatro

Mapas foram divulgados bienalmente após o primeiro, sempre com o subtítulo Os

jovens do Brasil

.

Em 2006 propôs-se a estruturação de uma nova série de

 

Mapas, centrados agora na

situação e evolução da mortalidade violenta nos 5,6 mil municípios do país. A série receberia o

nome de

Mapa da violência dos municípios brasileiros, e sua segunda edição viria em 2008.

Instituições ligadas à problemática da criança e da adolescência trouxeram-nos a

necessidade de avaliar outras faixas etárias além da tradicional “juventude”. Isso nos levou a

propor um estudo mais pontual em 2009, centrado em homicídios por um lado, e em várias

faixas etárias por outro lado (infância, adolescência, juventude), segundo a definição dos

diversos instrumentos legais do país.

Esse é o objetivo deste novo

Mapa: verificar a estruturação histórica, as características

e as tendências da violência homicida no país, nas diversas faixas etárias significativas da

população. Tomando como foco a violência homicida, estudam-se os desdobramentos não só

no Estados, capitais e regiões metropolitanas, mas também nos municípios. Não sendo

possível cobrir a totalidade dos municípios do país, optou-se por listar, em cada capítulo

referente às faixas etárias, os 300 municípios mais violentos do Brasil. No

site da instituição2

deixamos uma planilha no formato MS Excel com a totalidade dos dados referentes aos 5.564

municípios do país.

Os dados utilizados no presente estudo têm a sua origem nas seguintes fontes:

1

WAISELFISZ, J.J. Mapa da violência: os jovens do Brasil. Rio de Janeiro: UNESCO, Instituto Ayrton Senna,

Garamond, 1998.

2

 

3

Homicídios e população do Brasil: Subsistema de Informações de Mortalidade

– SIM – e DATASUS, ambos do Ministério da Saúde – MS.

Homicídios e população internacional: WHOSIS (Sistema de Informação

Estatística da Organização Mundial da Saúde) e as estatísticas internacionais

do Censo norte-americano (US Census Bureau).

Dentre as causas de óbito estabelecidas pelo SIM, foi utilizado o agrupamento X85 a

Y09, que recebe o título genérico de

Agressões. Este capítulo enfoca a agressão realizada por

terceiros com qualquer meio para provocar danos, lesões ou a morte da vítima.

Os dados expostos aqui permitem afirmar que os anos de 1997 a 2007 constituem uma

década atípica na história recente da violência do país. Pela primeira vez desde que foram

disponibilizados os primeiros dados de mortalidade pelo Ministério da Saúde, em 1979, é

possível observar uma queda nos índices de homicídio do país. Até 2003 os índices de

homicídio foram crescendo com assustadora regularidade, em taxas superiores a 5% ao ano. A

partir desse ano, as taxas de homicídio mostram uma tendência declinante inédita no país.

Que conjunturas explicam essa reversão? Pensamos que foram, fundamentalmente,

dois fatores relativamente independentes:

Por um lado, o Estatuto do Desarmamento, que entrou em vigor nos últimos dias de

2003, tornando mais rígidas as penas por porte e/ou posse de armas de fogo; e a conseqüente

Campanha do Desarmamento, iniciada em meados de 2004, que retirou muitas armas de

circulação pela entrega voluntária (com contraprestação financeira).

Por outro lado, o sucesso de políticas estaduais em uns poucos estados do País cujo

grande peso demográfico afeta significativamente as taxas nacionais.

4

O Estado de São Paulo inicia esse processo na virada do século XXI. Minas Gerais, que

experimentara um brutal crescimento até 2004, passando de 1546 homicídios por ano para

4241 por ano, inicia em 2005 um significativo processo de redução. Devemos mencionar

também o Rio de Janeiro, líder histórico dos índices de violência homicida do país, que a partir

de 2003 começa a evidenciar uma tendência de queda em suas taxas, de forma lenta mas

sistemática. Não devemos esquecer que, no ano 2000, esses três Estados concentravam 41%

da população e 55% dos homicídios cometidos no ano. Torna-se óbvio que qualquer alteração

nesses Estados, pelo seu peso, terá visível repercussão nas taxas nacionais.

Como contraponto a essas quedas, para os demais Estados do País a década foi de

estagnação, como nos casos de Pernambuco, Espírito Santo, Rondônia ou Acre, ou de

crescimento – bastante significativo em alguns casos, como no Maranhão, em Alagoas e no

Piauí.

Com isso, no início e fim dessa década, a situação do País permaneceu praticamente

inalterada: 25,4 homicídios por 100 mil habitantes no ano de 1997, e 25,2 homicídios por 100

mil habitantes em 2007.

Diferente foi o percurso das capitais e regiões metropolitanas do País. Nelas, tanto os

números absolutos de homicídios quanto os relativos (considerando as populações)

evidenciam quedas bem significativas entre 1997 e 2007, chegando a 25% nas regiões

metropolitanas e 19,8% nas capitais. Também o movimento ao longo da década foi diferente:

estagnação nas taxas até 2003, quando nos Estados os aumentos são sistemáticos e

significativos, e quedas bem pronunciadas a partir de 2004.

Os fatores explicativos dessas quedas são os mesmos: Estatuto e Campanha do

Desarmamento, aliadas a políticas estaduais que resultaram efetivas em uns poucos Estados

com grande peso demográfico: Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro.

Essas diferenças de evolução entre os Estados reconfiguraram o panorama nacional.

Um estado como Alagoas, que até há poucos anos apresentava taxas moderadas e abaixo da

média nacional, passa a liderar em pouco tempo o triste

ranking da violência homicida, com

crescimento vertiginoso a partir de 1999. De forma semelhante, Paraná, Pará e Bahia, que em

1997 apresentavam índices relativamente baixos, em 2007 passam a ocupar lugares de

destaque nesse mapa da violência. No sentido contrário, São Paulo, que com sua taxa de 29,1

homicídios em 1997 ocupava a 5ª posição nacional, vê em dez anos as taxas caírem para 17,1

homicídios por 100 mil habitantes (25ª posição).

5

Tabela 3.1.3. Ordenamento das Unidades da Federação por Taxas

de Homicídio (em 100.000) na População Total. 1997/2007

UF

1997 2007

Taxa Pos. Taxa Pos.

Alagoas 24,4 14º 59,6 1º

Pernambuco 51,7 2º 55,6 2º

Espírito Santo 51,0 3º 54,4 3º

Rio de Janeiro 66,3 1º 52,2 4º

Distrito Federal 35,8 6º 33,5 5º

Mato Grosso 34,0 9º 32,2 6º

Paraná 20,0 17º 31,3 7º

Pará 13,8 23º 31,2 8º

Mato Grosso do Sul 41,9 4º 31,2 9º

Bahia 16,0 20º 31,1 10º

Sergipe 33,4 10º 29,6 11º

Roraima 35,4 7º 29,0 12º

Rondônia 31,6 11º 28,1 13º

Amapá 34,3 8º 26,9 14º

Goiás 28,6 12º 26,4 15º

Rio Grande do Norte 18,0 18º 25,2 16º

Ceará 16,8 19º 25,1 17º

Paraíba 14,9 21º 24,4 18º

Minas Gerais 11,4 24º 23,6 19º

Rio Grande do Sul 21,5 15º 22,4 20º

Amazonas 20,4 16º 21,5 21º

Acre 26,6 13º 19,1 22º

Maranhão 9,2 26º 18,4 23º

Tocantins 13,9 22º 17,2 24º

São Paulo 39,1 5º 17,1 25º

Piauí 6,1 27º 14,4 26º

Santa Catarina 9,4 25º 11,3 27º

Fonte: SIM/SVS/MS

Consideremos a faixa etária de 0 a 18 anos. O Estatuto da Criança e do Adolescente

define como

crianças as pessoas de 0 a 12 anos de idade incompletos e adolescentes, de 12 a

18 anos. Aqui também temos um panorama bem diferenciado.

Para as crianças, a década praticamente não apresenta mudanças nas taxas, que

permanecem estancadas em 0,9 homicídio em 100 mil crianças. Também não existe tendência

definida na evolução para cada idade simples.

6

Tabela 4.1.1. Evolução do Número e das Taxas (em 100.000)

de Homicídio por Idade na faixa 0-19 anos. Brasil. 1997 e 2007.

Idade/faixa

Número de Homicídios Taxas de Homicídio

1997 2007 Cresc. % 1997 2007 Cresc. %

menos de 1 ano 81 77 -4,9 2,6 2,4 -5,7

1 ano 19 26 36,8 0,6 0,8 32,4

2 anos 26 18 -30,8 0,8 0,5 -33,6

3 anos 27 26 -3,7 0,8 0,8 -7,8

4 anos 14 25 78,6 0,4 0,7 66,2

5 anos 16 22 37,5 0,5 0,6 26,3

6 anos 22 28 27,3 0,7 0,8 19,6

7 anos 23 23 0,0 0,7 0,7 2,2

8 anos 27 28 3,7 0,8 0,8 5,0

9 anos 29 26 -10,3 0,9 0,8 -8,2

10 anos 36 25 -30,6 1,0 0,8 -25,6

11 anos 42 43 2,4 1,2 1,3 5,6

12 anos 55 65 18,2 1,6 1,9 22,1

13 anos 116 131 12,9 3,2 3,9 22,2

14 anos 257 315 22,6 6,9 9,4 35,8

15 anos 500 633 26,6 13,9 18,7 34,4

16 anos 860 1.081 25,7 24,0 31,6 31,6

17 anos 1.287 1.566 21,7 38,2 45,3 18,6

18 anos 1.526 1.933 26,7 46,2 55,4 19,9

19 anos 1.682 2.075 23,4 54,1 59,0 9,1

Criança* 362 367 1,4 0,9 0,9 -0,2

Adolescente** 4.601 5.724 24,4 18,7 24,1 28,8

Fonte: SIM/SVS/MS

Notas: * 0 a 11 anos; ** 12 a 18 anos

Já para os adolescentes, os números vão crescendo drasticamente, à medida que

avança a idade. Entre os 12 e 15 anos, a cada ano de vida praticamente duplicam o número e

as taxas de homicídio. Diferentemente das crianças, os índices crescem significativamente

entre 1997 e 2007: acima de 24%.

7

Tabela 4.1.4. Ordenamento das UF por Taxas de

Homicídio (em 100.000) na população de 0 a 19 anos

de idade. Brasil. 1997/2007.

UF

1997 2007

Taxa Pos. Taxa Pos.

Espírito Santo 18,7 4º 29,0 1º

Alagoas 7,0 13º 27,1 2º

Pernambuco 19,2 3º 27,0 3º

Distrito Federal 19,7 2º 24,2 4º

Rio de Janeiro 28,2 1º 21,2 5º

Paraná 5,6 16º 18,0 6º

Mato Grosso do Sul 11,5 7º 15,2 7º

Roraima 9,2 9º 13,0 8º

Minas Gerais 2,6 26º 11,9 9º

Pará 4,4 21º 11,8 10º

Paraíba 5,5 17º 11,5 11º

Mato Grosso 9,6 8º 11,0 12º

Bahia 6,3 14º 10,8 13º

Amapá 16,6 5º 10,7 14º

Rondônia 6,1 15º 10,6 15º

Ceará 4,8 19º 10,6 16º

Goiás 4,7 20º 10,6 17º

Rio Grande do Sul 7,4 12º 10,5 18º

Sergipe 5,5 18º 9,4 19º

Rio Grande do Norte 3,8 22º 9,1 20º

Amazonas 8,7 10º 8,0 21º

Maranhão 1,2 27º 6,2 22º

Acre 7,7 11º 6,1 23º

São Paulo 15,6 6º 6,0 24º

Santa Catarina 2,9 24º 5,7 25º

Tocantins 3,2 23º 5,3 26º

Piauí 2,7 25º 4,2 27º

Fonte: SIM/SVS/MS

As idades com maior crescimento na década vão dos 14 aos 16 anos de idade, com

incremento superior a 30%. Esses dados podem ser melhor apreendidos decompondo-os de

acordo com a idade simples.

A faixa entre 0 a 18 anos apresenta taxa de 12 homicídios em 100 mil habitantes,

pondo o Brasil em 5º lugar numa lista de 91 países estudados. Internamente, destacam-se

8

Grafico 5.1.2. Número de homicídios juvenis (15/24). Brasil.

1997/2007

15.284

17.501

17.475

17.994

19.731

15.765

18.135

14.270

19.207

18.599

18.073

13000

14000

15000

16000

17000

18000

19000

20000

21000

1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007

Ano

Número de Homicídios

pela violência os Estados do Espírito Santo, Alagoas, Pernambuco e Distrito Federal com taxas

superiores a 20 homicídios por 100 mil habitantes. No extremo oposto, Piauí, Tocantins e

Santa Catarina apresentam taxas abaixo de seis homicídios por 100 mil habitantes.

Entrando na faixa jovem, de 15 a 24 anos de idade, vemos que os números se

avolumam de forma significativa. É nesta faixa que se concentram os maiores índices de

homicídio do país, atingindo o pico dos 20 aos 21 anos de idade. Apesar de representarem

apenas 18,6% da população brasileira em 2007, os jovens concentravam 36,6% dos homicídios

desse ano.

A evolução dos homicídios juvenis na década acompanha os movimentos da população

total, mas com maior intensidade: entre 1997 e 2003 os homicídios juvenis cresceram 38,3% --

em apenas seis anos, note-se. De 2003 a 2007, pelos motivos já apontados para a população

total, os números experimentam uma queda de 11,4%.

Aqui também observamos fortes diferenças no ritmo de crescimento das áreas

geográficas: se os homicídios juvenis nos Estados cresceram 22,5% entre 1997 e 2007, nas

capitais os números estagnam e nas regiões metropolitanas caem 6,2% -- evidenciando o

crescimento no

interior dos Estados.

9

Tabela 5.1.3. Ordenamento das UF por Taxas de

Homicídio (em 100.000) na população de 15 a 24 anos

de idade. Brasil, 1997/2007.

UF

1997 2007

Taxa Pos. Taxa Pos.

Alagoas 30,2 14º 125,6 1º

Pernambuco 90,9 2º 111,4 2º

Espírito Santo 86,6 3º 104,3 3º

Rio de Janeiro 117,6 1º 90,1 4º

Distrito Federal 66,4 6º 74,9 5º

Paraná 26,9 16º 67,7 6º

Amapá 79,1 4º 64,3 7º

Pará 21,6 19º 54,7 8º

Mato Grosso do Sul 50,3 7º 53,4 9º

Bahia 28,7 15º 50,1 10º

Goiás 19,5 21º 49,4 11º

Sergipe 20,9 20º 46,3 12º

Minas Gerais 11,2 25º 45,4 13º

Mato Grosso 37,2 11º 45,0 14º

Ceará 23,5 17º 44,2 15º

Paraíba 21,9 18º 44,2 16º

Rondônia 36,1 12º 42,4 17º

Roraima 48,8 8º 41,4 18º

Amazonas 39,6 9º 40,9 19º

Rio Grande do Sul 30,5 13º 40,2 20º

Rio Grande do Norte 15,0 23º 34,9 21º

Maranhão 8,1 27º 29,3 22º

Acre 39,2 10º 25,6 23º

São Paulo 70,0 5º 25,6 24º

Tocantins 16,5 22º 22,0 25º

Santa Catarina 12,0 24º 21,3 26º

Piauí 9,9 26º 19,8 27º

Fonte: SIM/SVS/MS

Colocando lado a lado os anos extremos da década analisada, vemos que também nos

homicídios juvenis aconteceram mudanças de peso, acompanhando em linhas gerais a

situação da população total.

Alagoas sai de uma situação de moderada tranqüilidade em 1997 e salta para o

primeiro lugar no

ranking nacional de homicídios juvenis em 2007, quadruplicando sua taxa no

10

período. Em menor medida, também Paraná, Pará, Minas Gerais e Goiás experimentam

incrementos dramáticos. Por outro lado, em Estados como São Paulo, as taxas caem também

de forma intensa: SP passa da 5ª para a 24ª posição do ranking nacional. Acre, Amazonas, Rio

Grande do Sul e Roraima também têm índices em queda, com posições marcadamente

diferentes nos extremos da década.

Uma questão interessante surge quando desagregamos os dados dessa faixa. Podemos

observar que, na década, a mortalidade por homicídio cresceu bem mais nas idades mais

novas. O maior crescimento nas taxas operou-se nos 15 e 16 anos de idade, aumentado acima

de 30%. Nos 17 e 18 anos de idade, o crescimento cai para menos de 20%. Acima dos 20 anos

de idade, praticamente não se observam grandes mudanças na década analisada. Esse

incremento dos 15 aos 17 anos provavelmente está relacionado com a imputabilidade etária

estabelecida no Estatuto da Criança e do Adolescente, que deriva em maior aproveitamento

dessa faixa no crime organizado.

Entre os jovens de 15 a 24 anos de idade, o número de homicídios cresceu sistemática

e significativamente até o ano de 2003, com incrementos em torno de 5% ao ano. Já em 2004,

essa tendência se reverte, quando o número de homicídios cai 5,2% em relação a 2003, queda

que pode ser atribuída às políticas de desarmamento desenvolvidas a partir de 2003.

Tabela.5.1.4. Evolução do Número e das Taxas de Homicídio

na População de 15 a 24 anos por idade. Brasil, 1997/2007.

Idade

Número de Homicídios Taxas de Homicídio

1997 2007

Δ% 1997 2007 Δ%

15

 

16

 

17

 

18

 

19

 

20

 

21

 

22

 

23

 

24

 

Total 14.270 17.475 22,5 45,1 50,1 11,0

Fonte: SIM/SVS/MS

11

Destacam-se as regiões Norte e Nordeste: elevados índices de crescimento de

Maranhão, Pará e Alagoas quase triplicam o número de homicídios da década analisada. Piauí,

12

Rio Grande do Norte e Sergipe também ostentam elevados índices de crescimento, levando as

regiões a sustentar incômodas taxas globais: 97,9% (Norte) e 76,5% (Nordeste).

Também o Sul mostra um expressivo aumento (62,9%) no número de homicídios,

puxado pelo incremento de 96,2% do Paraná. Já no Centro-Oeste, os homicídios cresceram em

ritmo menor: 33,8%, mas também acima da média nacional.

Mas é na região Sudeste onde encontramos a maior polarização. Por um lado há Minas

Gerais, onde os homicídios cresceram 213,9% (mais que o triplo), mesmo levando-se em conta

indícios de reversão a partir de 2004 principalmente na região metropolitana de Belo

Horizonte, com veremos mais à frente. No outro extremo, São Paulo, com quedas expressivas

e sistemáticas a partir de 1999. O número absoluto de homicídios em 2007 é metade do

registrado em 1997.

GÊNERO

Nos diversos mapas divulgados, a relação direta entre mortes violentas e pessoas do

sexo masculino forma uma constante histórica. Por exemplo, em 2004 eram do sexo

masculino:

92,1% das vítimas de homicídio;

85,1% das mortes por acidentes de transporte e

78,7% dos suicidas.

INTERIORIZAÇÃO DA VIOLÊNCIA

Já em Mapas anteriores começamos a perceber um novo fenômeno: se até meados da

década de 90 as grandes metrópoles do País constituíam-se nos polos dinâmicos do

crescimento da violência, na segunda metade dessa década pode-se observar estagnação e

queda dos índices nas grandes capitais e regiões metropolitanas. Assim, as taxas de

homicídio...

caem, nas Capitais, de 45,7 por cem mil habitantes, em 1997, para 36,6 por cem

mil, em 2007;

caem nas dez maiores regiões metropolitanas de 48,4 por cem mil habitantes para

36,6 por cem mil;

mas elevam-se no interior dos Estados: de 13,5 por cem mil habitantes, em 1997,

para 18,5, em 2007.

13

Estes dados indicam claramente uma mudança nos polos dinâmicos da violência

homicida. Isso não significa que os números ou as taxas de homicídio do interior são maiores

que os dos grandes centros urbanos; indica, simplesmente, que o crescimento dos homicídios,

concentra-se agora em municípios do interior dos Estados.

Quais seriam as causas dessa reversão? Em primeiro lugar, a emergência de polos de

crescimento em municípios do interior de diversos estados do País; atraindo investimentos e

gerando emprego e renda, tornam-se também atraentes para a criminalidade, ainda mais

diante da virtual ausência de esquemas de proteção do Estado.

Em segundo lugar, os investimentos em segurança nas capitais e nas grandes regiões

metropolitanas, declaradas “prioritárias” a partir do novo Plano Nacional de Segurança Pública

de 1999, e do Fundo Nacional de Segurança, instituído em janeiro de 2001. Foram canalizados

recursos federais e estaduais principalmente para aparelhamento dos sistemas de segurança

pública nos grandes conglomerados. Isso dificultou a ação da criminalidade organizada, que

migrou para áreas de menor risco – justamente o interior dos Estados.

Em terceiro lugar, a maior cobertura dos sistemas de coleta de dados de mortalidade,

principalmente no interior do País, onde diminui a sub-notificação existente. Fenômenos que

antes não eram registrados começam a incidir nas estatísticas de mortalidade.

Por um ou outro motivo, as novas configurações espaciais reformulam o dinamismo da

letalidade homicida – centrado, até esse momento, nos grandes centros urbanos. São os já

mencionados polos interioranos de desenvolvimento: municípios de fronteira; áreas de

turismo predatório (principalmente áreas litorâneas); zonas de grilagem e de grandes

empreendimentos agrícolas vinculados ao desmatamento amazônico; zonas tradicionalmente

acossadas por pistoleiros; etc.

VITIMIZAÇÃO JUVENIL

Ao longo dos diversos capítulos foi possível evidenciar que, a partir da década de 1980,

o aumento da violência homicida no país foi fundamentalmente causado pelo crescimento

descontrolado dos homicídios entre os jovens. Entre 1980 e 2007, fora da faixa dos 15 aos 24

14

Gráfico 8.2.2.Evolução das Taxas de Homicídio Jovem (15 a

24 anos) e Não Jovem. Brasil, 1980/2007

21,2

18,1

20,5 19,6

30,0

38,8

51,4 50,1

0

10

20

30

40

50

60

1980 1990 2000 2007

Taxa de Homicídio (em 100 mil)

Taxa Não Jovem

Taxa jovem

Gráfico 8.2.1. Índices de Vitimização Juvenil (15 a 24

anos). Brasil, 1997/2007.

232

235

250

242

252

254 253

256

251

256

220

215

220

225

230

235

240

245

250

255

260

1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007

Ano

Índice

anos de idade, os índices de homicídio permaneceram estagnados ou até caíram levemente.

Em 1980 as taxas de homicídio entre não-jovens foram de 21,1 a cada 100 mil; já em 2007,

essa taxa cai para 19,8 em 100 mil. Entre os jovens de 15 a 24 anos de idade, porém, o caso é

outro. Se em 1980 a taxa de homicídios foi de 30 para cada 100 mil jovens, em 2007 chegou a

50,1 para cada 200 mil. Isso revela, de forma inequívoca, a exclusiva participação juvenil no

drama do crescimento da violência letal do País. Pode-se afirmar, portanto, que a história

recente da violência homicida no Brasil é a história do desenvolvimento de sua questão juvenil.

Uma não terá solução sem a outra.

Essa focalização da mortalidade juvenil por homicídios ainda não foi revertida. Seu

forte crescimento, registrado até o início da presente década, hoje se estagnou; mas ainda

apresenta tendência de aumento paulatino, evidenciado no gráfico a seguir.

15

Gráfico 8.2.1. Índices de Vitimização Juvenil (15 a 24

anos). Brasil, 1997/2007.

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Ano

Índice

Os aspectos apontados até aqui exigem uma séria revisão das políticas vigentes de

combate e enfrentamento da violência. Os caminhos dessa revisão não são difíceis de delinear:

Promover políticas e estratégias que estimulem a plena inserção e o

protagonismo dos principais atores e vítimas desse processo, os jovens e os

negros;

Articular esforços e iniciativas do setor público (nas esferas federal, estadual e

municipal) e da iniciativa privada, das organizações não governamentais e da

sociedade.

Desenvolver estratégias que promovam o conhecimento, a revalorização e o

fortalecimento das identidades de jovens e negros; bem como sua

participação, como setor ativo e consciente, da construção da cidadania e do

desenvolvimento do País.

Se este documento contribuir de alguma forma para alcançar esse objetivo, terá

cumprido sua

finalidade e tornado válido o esforço de sua elaboração.

Instituto Sangari
1.580 2.029 28,4 54,5 54,9 0,8
1.652 1.954 18,3 55,7 53,4 -4,1
1.631 1.995 22,3 53,8 55,0 2,4
1.733 2.130 22,9 55,9 59,3 6,2
1.819 2.079 14,3 57,4 58,5 1,8
1.682 2.075 23,4 54,1 59,0 9,1
1.526 1.933 26,7 46,2 55,4 19,9
1.287 1.566 21,7 38,2 45,3 18,6
860 1.081 25,7 24,0 31,6 31,6
50 0 633 26,6 13,9 18,7 34,4
www.institutosangari.org.br/mapadaviolencia.




 
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