DISCURSO DO MINISTRO PAULO VANNUCHI
DISCURSO DO MINISTRO PAULO VANNUCHI –
21.12.2009
Cerimônia de Lançamento do PNDH-3 – Palácio do
Itamaraty
Peço licença para saudar todos os companheiros
da Mesa nas pessoas do Presidente da
República, do Vice-Presidente, da Ministra
Dilma Rousseff;
Minha saudação também a todos os conselhos,
comitês e comissões no âmbito da Secretaria
Especial de Direitos Humanos, na pessoa do
Marco Antônio Barbosa, Presidente da Comissão
Especial sobre Mortos e Desaparecidos;
Aos integrantes da Comissão de Direitos
Humanos da Câmara dos Deputados, nossa
parceira, junto com o Fórum das Entidades
Nacionais de Direitos Humanos, na coordenação
da 11ª Conferência Nacional;
Agradecimento muito especial à equipe da
Secretaria Especial dos Direitos Humanos, na
pessoa do meu secretário executivo, Rogério
Sottili; nessa equipe, agradecer em particular
à Paula Lima, que coordenou o delicado
processo de elaboração do PNDH a partir dos
resultados da 11ª Conferência;
Estendo meus cumprimentos ao Marivaldo Pereira
e ao Beto Vasconcellos, da Casa Civil, e em
nome deles às equipes que também se dedicaram
à elaboração do PNDH, que teve a contribuição
de todos os Ministérios;
Encerro as saudações com um agradecimento
muito especial, Presidente, ao querido
companheiro Paulo Betti, um artista que é
símbolo da luta pelos Direitos Humanos no
Brasil, que nos deu a honra de vir aqui fazer
o trabalho cerimonial;
O dia hoje é, sobretudo, um dia de festa. É um
dia de alegria. Muito importante frisar isso,
porque Direitos Humanos costuma ser, a maior
parte do tempo, um tema vinculado à dor, ao
sofrimento, ameaças, lágrimas e sangue.
Estamos também celebrando hoje o 61º
aniversários da Declaração Universal dos
Direitos Humanos, de 10 de dezembro de 1948.
Este comparecimento tão expressivo, aqui no
Itamaraty, demonstra cabalmente o empenho, o
compromisso do Brasil, do Governo Brasileiro,
dos poderes públicos e da sociedade civil
brasileira com a agenda dos Direitos Humanos.
É um dia de agradecimento, dia de celebração,
dia de reafirmação dos nossos compromissos.
Acabamos de realizar, aqui, a cerimônia anual
de entrega do Prêmio Direitos Humanos 2009,
que homenageou figuras tão importantes,
simbólicas, heróicas, como Manoel de Matos,
advogado, ex-presidente da Câmara Municipal de
Itambé, em Pernambuco, vice-presidente
estadual do PT, assassinado em janeiro deste
ano, na Paraíba, pelos mesmos grupos de
extermínio que ele denunciava há dez anos.
Os agradecimentos, Presidente Lula, começam
pedindo licença para lembrar que hoje, 21 de
dezembro, completo quatro anos no cargo. E no
discurso em que me deu posse, o senhor
determinou duas orientações básicas. A
primeira foi no sentido de ampliar a agenda de
Direitos Humanos, para que fosse assimilada
sempre no seu sentido marcadamente positivo,
de defesa da vida. A crença de que nós vamos
construir esse mundo, esse Brasil projetado
pelo sonho da igualdade, da liberdade e da
solidariedade. A segunda foi sua indicação de
que a defesa dos Direitos Humanos estarão na
Saúde, na Educação, no Desenvolvimento Social,
na Igualdade Racial, na Políticas para as
mulheres, em cada um dos Ministérios. O PNDH
3, que o senhor assina hoje como Decreto
Presidencial, é uma realização concreta e uma
prova inquestionável de engajamento completo
do Governo nessa realização.
Os desafios que temos pela frente seguem sendo
enormes, mas o saldo de realizações já é muito
robusto. Em 21 anos de democracia, destacando
também as muitas realizações dos governos
anteriores ao nosso, é preciso lembrar que o
nosso Governo colocou pela primeira vez o
combate à fome e à extrema pobreza como centro
das políticas de Estado; atribuiu status
ministerial à Secretaria dos Direitos Humanos;
triplicou o orçamento nos últimos anos;
aprovou uma nova estrutura, que permitiu
transformar a Corde em Subsecretaria Nacional
dos Direitos da Pessoa com Deficiência.
Nesse saldo robusto, Presidente, foram
realizadas duas conferências nacionais dos
direitos da pessoa com deficiência, duas
conferências nacionais dos direitos do idoso,
a primeira Conferência Nacional LGBT - todas
com seu envolvimento direto e pessoal -,
quatro conferências nacionais dos direitos das
crianças e dos adolescentes, o terceiro
Congresso Mundial de Enfrentamento à
Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.
Acabamos de realizar em Recife o show
“Direitos Humanos, Iguais na Diferença”, que a
Petrobras patrocina, na sua quarta edição, com
mais de 50 mil pessoas ouvindo grandes
artistas nacionais que alternavam suas músicas
e mensagens defendendo esses direitos. Também
a quarta “Mostra Cinema e Direitos Humanos na
América do Sul”, agora em 16 capitais, que já
é a maior mostra de cinema brasileiro em
termos de distribuição pelo país.
Eu quero me concentrar agora, Presidente, numa
breve síntese, recuperando uma marcha
histórica até chegar a este terceiro PNDH.
Reflete a própria construção dos Direitos
Humanos em nosso País, nessa transição de um
passado que, em muitos aspectos, insiste em
permanecer coexistindo com os novos valores
que vamos consolidando aos poucos. Nosso
desafio é sempre fazer aflorar o novo, a
construção do que ainda queremos e vamos
construir.
Em 1996, o ministro José Gregori - que foi o
primeiro Secretário dos Direitos Humanos – e o
ministro Nelson Jobim, na época Ministro da
Justiça, lançaram o primeiro PNDH que, em
2002, Paulo Sérgio Pinheiro, titular,
atualizou. E este, que lançamos hoje, tem como
destaque a composição entre todas as áreas de
Governo, inclusive com empresas como a Caixa
Econômica Federal, o Banco do Brasil e a
Petrobras nesse empenho.
Nesta terceira edição, foi sinalizada mais
claramente as responsabilidades dos demais
poderes republicanos, o Judiciário, o
Legislativo - na forma de recomendações - e
foi possível desenvolver um processo
democrático muito ampliado em relação aos
anteriores. O esqueleto básico deste PNDH foi
construído em 27 conferências estaduais, com
ampla participação da sociedade civil e dos
poderes públicos em cada unidade da Federação.
Em 26 de janeiro de 2008, Presidente, o
senhor, no Rio de Janeiro, no dia em que
celebramos a memória do Holocausto – o
imperativo de não esquecer, para que não
aconteça nunca mais -, o senhor convocou um
mutirão nacional para debater, revisar e
atualizar o Programa Nacional de Direitos
Humanos. Em seguida, assinou o Decreto
convocando para dezembro a 11ª Conferência
Nacional dos Direitos Humanos, que debateu e
aprovou as linhas gerais deste consistente
programa que vou entregar ao senhor ao final
do meu discurso, cujo Decreto oficial é
assinado neste evento solene e festivo.
Nesse debate preparatório, 14 mil pessoas
participaram diretamente. Houve tensões, sim.
Tensões democráticas, naturais, saudáveis,
absolutamente inevitáveis. No recente
lançamento do Programa Nacional da Safra da
Agricultura Familiar 2009/2010, o Senhor disse
em seu discurso: o Estado jamais será capaz de
atender todas as demandas da sociedade civil,
porque o papel da sociedade civil é exigir
sempre mais do Estado.
Nessa dinâmica permanente, desafiante, cada
momento de conquista é momento de aprofundar o
compromisso com o que ainda não foi realizado.
Durante os preparativos da 11ª Conferência,
também foram sistematizadas as resoluções das
50 conferências nacionais, hoje mais de 60,
realizadas desde 2003 em todos os temas que
compõem a diversidade dos Direitos Humanos:
segurança alimentar, saúde, educação, cultura,
cidades, meio ambiente, igualdade racial,
direitos da mulher, segurança pública etc.
Seguiram-se seis meses de negociações com a
sociedade civil e mais seis meses de delicadas
negociações dentro do Governo, respeitando,
compondo, somando, numa visão despida de
qualquer espírito de gueto, de sectarismo. E
temos em mãos um Programa muito consistente.
Ele possui seis eixos. O primeiro é o
fortalecimento permanente da democracia,
aspecto em que o nosso Governo representa um
marco histórico incomparável. A participação
da sociedade civil através de conselhos, de
conferências, ao receber as pessoas, como o
senhor já resumiu no vídeo que acabamos de
ver, mencionando sua emoção ao receber no
Palácio do Planalto o movimento dos
hansenianos e as lideranças dos catadores e da
população de rua.
Quem vive essas tensões entende a tentação dos
antidemocráticos, autoritários, dos burocratas
que não gostam desse contato, porque nesse
contato vêm cobranças, vêm às vezes pancadas
pela imprensa. A aferição do espírito
democrático de uma autoridade pública, de um
estadista, começa aí, na capacidade de
assimilar, de respeitar, de discordar
respeitando.
Democracia,lembremos, que ainda não está
inteiramente universalizada no Brasil porque
ainda há regiões, há estados, há momentos em
que os movimentos populares são
criminalizados. São tratados, ainda, com o
velho espírito do passado, como se não
tivessem assimilado, até agora, essa percepção
do Brasil novo, que está germinando,
crescendo.
O segundo eixo, Presidente, é a questão do
desenvolvimento, na linha do social como
centro do modelo econômico trilhado em nosso
Governo. A garantia de um crescimento
consistente do Brasil envolve articulação
entre grandes projetos e o pequeno
empreendimento, a economia solidária, o
cooperativismo, o desenvolvimento regional e
local, com sustentabilidade ambiental.
O eixo da Educação em Direitos Humanos é o que
me levou a ter como primeira agenda de 2009
uma visita ao ministro Fernando Haddad. E a
primeira agenda de 2010 também o será. Para
combinarmos a construção do Plano Nacional de
Educação 2011/2020, incorporando todas as
áreas dos direitos da mulher, desigualdade
racial, saúde, educação. Na linha do que o
senhor vem recomendando, Presidente, com a
palavra “consolidação”, preocupado que está em
garantir a continuidade histórica dos
principais programas de inclusão social.
O penúltimo eixo, Segurança Pública, também
representa um novo marco. Está claramente
afirmada a visão de que Segurança Pública é
direito humano de primeira grandeza. Direito a
não ser assaltado, a não ser sequestrado, a
não ser alvo de bala perdida. Na polícia que o
Brasil vem construindo, que tem compromisso
com o respeito aos Direitos Humanosa. Um
exemplo é a Polícia Rodoviária Federal,
premiada hoje, e a Polícia Federal, com o seu
papel cada vez mais elogiado. Cada policial
deve se ver, a si mesmo, como um defensor de
Direitos Humanos. Ao mesmo tempo, ser visto
assim pela comunidade que ele protege, onde
ele trabalha. E não como muitas vezes ainda
acontece, e, que a polícia é vista como uma
parceira do crime.
Por último, o Direito à Memória e à Verdade,
já bastante acentuado no discurso da ministra
Dilma e na homenagem a Inês Etienne. Eu
lembro, Presidente, as suas reiteradas
recomendações de sempre tratarmos este assunto
não reforçando a ideia de que esses
sobreviventes e os que morreram sejam vítimas.
A ideia de ressaltar a dor e a derrota. Nós
somos uma geração vitoriosa. A democracia dos
nossos sonhos, ela está aqui, também como
fruto da luta daqueles que não puderam estar
conosco mais. E dos que aqui estão. Na pessoa
da ministra Dilma, do ministro Juca, do
ministro Tarso, tantos outros, da Inês, da
Maria do Amparo e de tantos mais. O senhor
lembrou isso ao recordar os nomes de Gregório
Bezerra e de Marighella, no dia 20 de novembro
do ano passado, inaugurando a estátua de João
Cândido, no Rio de Janeiro, no Dia de Zumbi.
Termino reafirmando que este Programa Nacional
de Direitos Humanos incorpora o eixo do
Direito à Memória e à Verdade como passo
indispensável para a reconciliação nacional.
Tivemos um período de violência que não
queremos de volta. E para que ele não volte,
não exista nenhum perigo de voltar, é
fundamental nos estendermos as mãos.
Estendermos as mãos é não sufocar, não
acobertar, não tentar botar uma pedra sobre um
passado, sem processá-lo em todos os sentidos:
político, ético, filosófico, histórico. E o
Judiciário decidirá a respeito de qualquer
implicação criminal e penal, ou não.
Nesse sentido, esse eixo é um eixo de
valorização e fortalecimento das Forças
Armadas brasileiras, que já estão participando
ativamente de missões de proteção aos Direitos
Humanos: no combate à erradicação do
subregistro civil de nascimento; nas campanhas
de enfrentamento da fome; na Segurança Pública
em áreas de contrabando e de crimes de
fronteira; em eventos de pessoas com
deficiência, sobre crianças e que incorporam a
presença da mulher.
Neste espírito de reconciliação, a sua colega
Michelle Bachelet, presidente do Chile, com a
autoridade de médica, de torturada e de filha
de um ministro que foi morto pelos seguidores
de Pinochet, lembra que só as feridas lavadas
podem cicatrizar. Nesse sentido, passo às suas
mãos a publicação de um Programa Nacional de
Direitos Humanos que o senhor coordena, que o
senhor inspira. O desafio, agora, é
concretizá-lo. Muito obrigado.



