A mulher e a faixa presidencial
A mulher e a faixa presidencial
Hoje me veio à cabeça uma música antiga, da qual não sou contemporâneo, que retrata tudo que sinto neste momento histórico para o Brasil. Trata-se da composição de 1978 de Milton Nascimento e Fernando Brant – Maria, Maria. Seus versos entoam: “Maria, Maria é um dom, uma certa magia, uma força que nos alerta. Uma mulher que merece viver e amar como outra qualquer do planeta; Maria, Maria é o som, é a cor, é o suor, é a dose mais forte e lenta, de uma gente que ri,quando deve chorar,e não vive, apenas agüenta”.
Sei muito bem por que ela surgiu em minhas lembranças e insiste em não partir. Numa festa para a filha de uma amiga ouvi de uma senhora, dessas de família tradicional, a frase “Não voto em mulher e, definitivamente não voto nesta mulher!”. Ela se referia a Dilma Roussef, candidata à Presidência nas eleições deste ano. Senti que o problema não era com a Dilma ativista política, tampouco com a Dilma ministra do governo Lula, ou com a pessoa filiada ao Partido dos Trabalhadores. Pela ênfase que deu à palavra “Mulher” enxerguei que o ranço ia muito além. O problema residia no fato de estar diante de uma Mulher.
Como é que isso pode acontecer? Fiquei perplexo. Era uma mulher que discursava daquele modo. Reavaliei e ponderei: claro, nada mais plausível. Esta idéia parece estar inculcada no inconsciente popular, a tal percepção da “pouca importância da mulher”, lamentavelmente, ainda persiste. Um discurso reacionário tenta sobreviver em meio a uma série de argumentos fadados ao ostracismo. Uma afronta às lutas pela igualdade.
Na fala daquela senhora encontrei outro preconceito que exacerba em rezar: “Mulher não foi feita para desempenhar função predominantemente masculina, pelo menos não no Brasil”. Logo me surgiu uma outra canção cuja letra diz assim: “Ah mulher! Você não passa de uma mulher!”. Ora, as pesquisas comprovam que as mulheres são tão eficientes quanto os homens nos mesmos postos de trabalho, embora recebam bem menos que os agentes do sexo oposto, fato que faz perdurar essa pseudo e estapafúrdia argumentação de que mulher foi feita para afazeres domésticos, nada além do que servir a seu senhor – o homem.
Voltando à festa, surgiu outra coisa absurda. Alguém foi indagado pelo garçom a respeito de uma moça que havia solicitado algo e num instante se ouviu: “Ah! É minha mulher!”. A jovem senhora não teve a chance de existir. Não tinha CPF, RG, nada, só alcunha de “minha mulher”. Soou como objeto, era propriedade de alguém. Também, depois de tantas frutas – tem mulher-morango, uva, etc - e outros adjetivos esdrúxulos por aí, só podia dar nisso. Um intransigente e degradante método de submissão – algo para uso apenas.
Quando me volto à história vou longe. A data é 8 de março de 1857. Estudei sobre o massacre sofrido por um grupo de operárias em Nova York. Aquelas mulheres brutalmente assassinadas lutavam por melhores condições de trabalho e reconhecimento a igualdade de gênero, quando foram trancafiadas na fábrica onde labutavam. O galpão foi consumido em chamas e nenhuma delas escapou – cerca de 130 tecelãs morreram. Para recordar e nunca mais esquecer, nem deixar se repetir, a data marca a comemoração do Dia Internacional da Mulher. Pesa-me sentir que, no imaginário popular, trata-se tão somente de mais uma data festiva, sem qualquer significado - a não ser pelos ativistas. Gostaria, sinceramente que tivéssemos a consciência da importância desta que marcou definitivamente a luta pelos direitos de nossas mães, amigas, tias, babás, etc. No Brasil, só após 24 de fevereiro de 1932 as mulheres tiveram reconhecido o direito ao voto. Mas havia ainda um grande caminho a percorrer, elas não tinham representatividade.
A mulher foi e é personagem importante para a história da humanidade. Lutou pela sobrevivência da França com Joana D”Arc. Combateu na restauração da capital do Brasil Império em 1823, pela espada de Maria Quitéria, primeira Alferes feminina. No século XX, o destaque dado a sua atuação marcou definitivamente o teatro de operações da 2ª Grande Guerra contra o nazismo, onde ela [mulher] integrou a resistência dos países ocupados. E, finalmente, lutou pela democracia em nosso país quando, após 1964, se insurgiu contra o sistema tirano que subjugou nossa nação aos anos de chumbo. Se não fosse a coragem das mulheres, dificilmente teríamos a oportunidade de discutir agora a possibilidade de justamente uma delas, poder receber a faixa presidencial de seu antecessor.
Mas, na vida privada, as mulheres ainda têm muito a lutar. Os índices de violência contra elas são alarmantes. A cada ano contabilizamos em média cinco mil novos casos com morte, onde a causa é variada: asfixia, tiros, punhaladas. Em sua maior parte o motivo se reporta a tal “honra pessoal” do agressor – segundo dados do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos. Contudo, o que nos deixa mais indignados é ter que ouvir de alguns juristas desavisados posicionamentos inconseqüentes a despeito da inviabilidade e até mesmo da não legitimidade da lei Maria da Penha. Está mais do que comprovado que a norma veio para aplacar um flagelo que, quando não tira vidas, deixa seqüelas profundas. De forma recorrente a violência contra a mulher parte do seio familiar. Justamente quem deveria prot egê-la, maltrata, espanca, violenta, mata. O exemplo de Maria que cedeu seu nome à lei fez nascer uma norma que representa a busca descomunal e visceral por um Estado igualitário, justo, sem preconceitos.
A mulher tem e merece seu valor. Embora pareça clichê, esta frase deve ser incutida na cabeça de nossas crianças, jovens, nossos filhos, para que possamos quebrar definitivamente este ciclo vicioso, odioso e criminoso. O homem e a mulher têm que entender a importância do feminino para nossa sociedade. Afinal, só existimos porque “Deus em toda sua essência, desafiando o poder da ciência”, concedeu a ela a dádiva em dar à luz, em promover a perpetuação de nossa espécie. Por estes e outros motivos me indigna crer que justamente uma mulher, possa dizer: “Não voto em mulher”.
Por vezes ouvi o mesmo argumento preconceituoso contra os homossexuais em sua histórica luta pela dignidade. Tenho para mim que a causa do preconceito, massacre e morte de inúmeros gays em nosso país, guarda profunda relação com a cultura de identificação com o sexo “frágil”, “incapaz” em comandar na visão de machistas, reacionários e homofóbicos. O grande problema na mente doentia de tais pessoas é o simples fato de se parecer mulher.
Concluo com o mesmo entusiasmo conclamado por Maria, Maria. Sem dúvida a canção retrata o que toda mulher e homem deve buscar: força, raça e gana sempre: “Mas é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana sempre,..., Maria, Maria, (...). Quem traz no corpo a marca, Maria, Maria, mistura a dor e a alegria... Mas é preciso ter manha. É preciso ter graça. É preciso ter sonho, sempre. Quem traz na pele essa marca, possui a estranha mania de ter fé na vida.” Para que às Marias, assim como às Dilmas, Sofias, Roses, Moemas, Margaridas, Denises, Vilmas, enfim, a todas, possa, em breve, restar nosso reconhecimento e admiração por ser o que são – mulher, mãe, amiga, patriota.
Fernando Alcântara de Figueiredo, Sargento Licenciado do Exército, Escritor, autor do livro "Soldados não choram", Ed. Globo, Ativista político em Direitos Humanos, Membro do Grupo Tortura Nunca Mais do Estado de São Paulo



