Contra a criminalização de lideranças indígenas na Bahia
Cleymenne Cerqueira
Desde a prisão da importante
liderança Tupinambá da comunidade
Serra do Padeiro, município de Buerarema (BA),
Rosivaldo Ferreira da Silva, conhecido
como cacique Babau, os indígenas do
sul do estado vivem amedrontados e
trancafiados em suas aldeias. Os alunos
da comunidade estão sem ir às aulas (de
ensino médio) desde março, mês em que
Babau foi levado de sua casa pela Polícia
Federal durante a madrugada.
Têm sido constantes as ameaças de
fazendeiros, pistoleiros e até de populares
feitas aos indígenas. As lideranças
tiveram que suspender a ida dos estudantes
às escolas, pois ameaças pessoais e de
incêndio ao ônibus escolar que os leva
têm sido recorrentes. Jovens que freqüentavam
a faculdade tiveram que suspender
o curso, pois estavam sendo ameaçados
dentro das próprias salas de aula.
Cansados pela espera de uma solução
que nunca vem, as lideranças
indígenas da região resolveram se unir
e buscar respostas imediatas junto
aos governos estadual e federal. No
início de julho, cerca de 300 lideranças
acamparam em espaços da Assembléia
Legislativa da Bahia e da Secretaria de
Justiça, em Salvador.
Eles reivindicam providências para
interromper os constantes ataques de
que têm sido vítimas e que, muitas vezes,
são praticados pela própria Polícia
Federal, orgão que deveria garantirlhes
segurança. Ainda pedem o fim do
processo de criminalização da luta dos
povos indígenas em busca de seus territórios
tradicionais.
No dia 12 de julho, uma comitiva
dessas lideranças se reuniu com a secretária
de Justiça da Bahia, Lucina Tannue
e com o subsecretário de Segurança
Pública do estado, Ary Pereira. Na ocasião,
Pereira propôs a realização de uma
audiência pública em Buerarema para
esclarecer junto à população do município
esta situação, com o objetivo de
pôr fim às práticas de incitamento contra
os indígenas da região. Prática esta que
tem sido encabeçada por fazendeiros e
também pela imprensa local.
A estudante de direito que recentemente
esteve na Conferência da
Organização das Nações Unidas (ONU)
defendendo os direitos dos povos
indígenas, Patrícia Rodrigues Santos
Moraes, do povo Pataxó Hã Hã Hãe, e
representantes do Conselho Indigenista
Missionário (Cimi), da Comissão Pastoral
da Terra (CPT), do Movimento dos
Trabalhadores sem Terra e do Fórum de
Luta por Terra Trabalho e Cidadania da
Região Cacaueira também participaram
do encontro.
O subsecretário garantiu à comitiva
que serão realizadas investigações para
apurar as denúncias feitas por representantes
da comunidade da Serra do
Padeiro de envolvimento de policiais
civis na tentativa de assassinato ao
cacique Babau e outros representantes
de sua família. Ele ainda afirmou que,
se for necessário um contingente de
policiais será deslocado para garantir à
comunidade o direito de ir e vir, já que
a mesma, segundo relatos, encontra-se
encurralada dentro da sua área.
Para as lideranças é revoltante
observar como a Polícia Federal tem
agido com as comunidades indígenas.
“É preciso dar um basta nesta situação
que envolve as nossas comunidades.
Estamos sendo tratados como bandidos
perigosos, quando os verdadeiros bandidos
andam soltos por aí, aprontando e
nada acontece com eles”, afirmaram.
De acordo com as lideranças há
omissão na apuração das denúncias e
descaso do poder público frente às reivindicações
dos indígenas do estado. “O
que mais nos revolta é que as denúncias
são feitas, são comprovadas as irregularidades
e nada é feito de concreto.
Exemplo desta situação é a prisão do
cacique Babau e de seus irmãos, que
foram permeadas de irregularidades e
mesmo assim eles continuam presos.
Queremos que eles sejam libertados!”.
“Eles foram presos arbitrariamente por
defender uma terra indígena que está
em processo final de demarcação”, disse
Tainã Andrade Tupinambá.
A luta jurídica pela soltura
das lideranças Tupinambá
Na manhã do dia 15 de julho, uma
comissão de lideranças Pataxó Hã Hã
Hãe e Tupinambá se reuniu com a presidente
do Tribunal de Justiça da Bahia,
Drª Telma Britto. Durante o encontro,
eles falaram sobre o crescente processo
de criminalização contra os povos indígenas
do estado, situação decorrente
da luta pela posse de seus territórios
tradicionais. Eles demostraram à presidente
a importância cultural de suas
terras, que são fonte de vida material
e espiritual.
Sensibilizada com a exposição dos
indígenas, a presidente do TJBA entendeu
a necessidade de agilizar a distribuição
dos habeas corpus relacionados à
luta do Povo Tupinambá que aguardavam
no Tribunal, bem como de novos habeas corpus
mpetrados no dia 15, um dos
quais pela assessoria jurídica do Cimi
com a contribuição de Patrícia Rodrigues
Santos Moraes.
A comissão conversou ainda com o
juiz relator dos habeas corpus, Dr. Jeffeson
Alves de Assis. De acordo com o magistrado,
o primeiro HC impetrado pela Funai
está com vista ao Ministério Público,
aguardando elaboração de parecer.
Entenda o caso
Os HCs impetrados na Justiça de
Salvador são referentes às ordens de
prisão expedidas pelo juiz de Direito
da Comarca de Buerarema, Antônio
Carlos de Souza Higyno, em 12 de abril.
Babau e Gil estavam presos no Presídio
Federal de Segurança Máxima de Mossoró
(RN), de onde foram levados no dia
16 de junho para a Polícia Federal do
município e posteriormente transferidos
para o Complexo Pentenciário Lemos de
Brito, em Salvador.
No dia 8 de junho, por maioria
dos votos e acompanhando o voto do
juiz federal Guilherme Mendonça, a 3ª
Turma do Tribunal Regional Federal da
1ª Região julgou procedente o pedido
de liberdade para Babau e seu irmão.
Nesse julgamento, a Turma cassou os
dois decretos de prisão preventiva, sob
orientação do desembargador Tourinho
Neto, por excesso de prazo. De acordo
com o argumento, a PF teria 81 dias para
concluir as investigações, mas já haviam
se passado mais de 90 dias.
A decisão da 3ª Turma abarca dois
habeas corpus Lideranças se unem
contra processo de
criminalização na Bahia
Indígenas Tupinambá, Pataxó Hã Hã Hãe, Tuxá, Kiriri e Paiaia
protestam contra processo de criminalização de lideranças
indígenas e pedem providências das autoridades para libertar
cacique Babau e seus irmãos
Fotos: Cimi Regional Leste/Equipe Itabuna
Jun/Jul–2010
R
Manifestações
contra a
criminalização
de lideranças
indígenas da
Bahia e prisão
de Babau
e Glicéria,
do povo
Tupinambá
obter para si ou para outrem indevida
vantagem econômica”. (Arts. 288 e 158
do Código Penal Brasileiro)
O cumprimento da ordem de prisão
estadual às três lideranças Tupinambá
pela Polícia Federal revela a banalização
da prisão preventiva, num ato que é uma
verdadeira afronta ao Estado Democrático
de Direito. O princípio da presunção de
inocência ou quaisquer outros princípios
constitucionais são ignorados num típico
caso de criminalização do movimento legítimo
e democrático pelo cumprimento
da Constituição Federal, pela demarcação
da Terra Indígena Tupinambá e pela efetivação
de seus direitos.
A Polícia Federal vem utilizando
o mesmo corolário de ocorrências e
inquéritos para representar pela prisão
das lideranças Tupinambá indistintamente
junto à Justiça Federal e à Justiça
Estadual. Ao ser levada denúncia de
tais procedimentos à Organização das
Nações Unidas (ONU), o coordenadorgeral
de Defesa Institucional da Polícia
Federal, delegado Marcos Aurélio Pereira
de Moura, afirma que são distorcidos os
fatos relatados na denúncia de abuso
por parte de agentes da Polícia Federal
contra índios da etnia Tupinambá.
Denúncias à ONU
No dia 9 de junho, o Conselho Indigenista
Missionário (Cimi) e a entidade
Justiça Global enviaram denúncias sobre
os casos de prisões ilegais e torturas em
relação ao Povo Tupinambá, aos relatores
da Organização das Nações Unidas
(ONU). As entidades relatam o caso da
prisão de Babau e a prisão ilegal de Glicéria
Tupinambá – irmã do cacique – e
seu filho, de apenas dois meses. O primeiro
ofício enviado apresenta a prisão
de Babau pela Polícia Federal (PF), além
de retomar o caso das torturas sofridas
por membros da comunidade em 2009
e praticadas por agentes da PF da Bahia,
além de todo o histórico da luta tupinambá
por suas terras tradicionais.
Os representantes das duas entidades
relatam, detalhadamente, os atos
ilegais da PF da Bahia e, segundo eles,
“a grave violência no campo - em especial
a que sofrem os povos indígenas
do Brasil - é originada pela ausência de
responsabilização dos agentes públicos
que violam direitos; pela criminalização
das lideranças e pela não realização do
direito constitucional à demarcação do
território indígena, do reconhecimento
do valor, da dignidade e dos direitos
internacional e constitucionalmente
garantidos aos povos indígenas”.
Babau foi preso na madrugada do dia
10 de março por cinco policiais federais,
fortemente armados, que arrombaram
e invadiram sua casa, na comunidade
Tupinambá da Serra do Padeiro, estado
da Bahia. O mandado de prisão não foi
apresentado pelos policiais. Segundo
seus familiares, no momento de sua prisão,
Babau foi violentamente agredido e
ameaçado de morte.
Diante das denúncias e relatos,
as entidades requereram as seguintes
recomendações ao alto comissariado
da ONU:
1) Realização de uma investigação
séria e eficaz para que os agentes dos
crimes de tortura cometidos contra
Ailza Silva Barbosa, Alzenir Oliveira da
Silva, Calmerindo Batista da Silva, Mário
Oliveira Barbosa, José Otávio de Freitas
possam ser julgados e responsabilizados
pelo Poder Judiciário;
2) Manutenção e proteção da liberdade
dos defensores de direitos humanos
Cacique Babau – Rosivaldo Ferreira
da Silva - e Givaldo Jesus da Silva, frente
à prisão ilegal;
3) Garantia imediata da posse do
território ao povo Tupinambá, conforme
prevê a Constituição Federal brasileira,
mediante a finalização do processo
demarcatório junto aos órgãos competentes
e sua proteção;
4) Garantia da incolumidade física
do Povo Tupinambá;
5) Formação contínua em Direitos
Humanos dos agentes policiais que
tratam com povos indígenas e outras
minorias étnicas.
Caso Glicéria
A prisão da irmã do cacique Babau,
Glicéria Tupinambá, juntamente com seu
filho de apenas dois meses também foi
denunciada à ONU.
No dia 2 de junho, Glicéria participou
da reunião da Comissão Nacional de
Política Indigenista (CNPI), em Brasília,
que inclusive contou com a presença
do Presidente da República, Luis Inácio
Lula da Silva. Na oportunidade, ela
chegou a denunciar as perseguições
que as lideranças Tupinambá têm sido
vítimas por parte da Polícia Federal no
Sul da Bahia.
No dia seguinte, quando tentava
retornar para sua aldeia, Glicéria – tendo
ao colo Erúthawã, de dois meses – foi
detida ao descer do avião, ainda na
pista de pouso do aeroporto da cidade
de Ilhéus, estado da Bahia, diante dos
demais passageiros, por três agentes da
Polícia Federal, numa intenção clara de
constrangê-la. O episódio foi testemunhado
por Luis Titiah, liderança Pataxó
Hã-hã-hãe, também membro da CNPI,
que a acompanhava.
Após ser interrogada durante
toda a tarde na sede da PF em Ilhéus,
sempre com o bebê ao colo, Glicéria
recebeu voz de prisão ao deixar as
dependências do órgão. A prisão teria
sido decretada pelo juiz Antonio
Hygino, da Comarca de Buerarema-
Bahia, sob a alegação de Glicéria ter
participado no seqüestro de um veículo
da empresa que presta serviço de
energia na região. O juiz, em entrevista
concedida ao repórter Fábio Roberto
para um jornal da região, se referiu
aos Tupinambá como “pessoas que se
dizem índios”.
No documento enviado à ONU, eles
também solicitaram que fossem requeridas
as seguintes recomendações:
a) Imediata concessão de liberdade
da defensora de direitos humanos Glicéria
Tupinambá e a seu filho Erúthawã
Jesus da Silva, frente à prisão ilegal;
c) Garantia imediata da posse do
território ao povo Tupinambá, conforme
prevê a Constituição Federal brasileira,
mediante a finalização do processo
demarcatório junto aos órgãos competentes
e sua proteção;
d) Garantia da incolumidade física
do Povo Tupinambá;
e) Formação contínua em Direitos
Humanos dos agentes policiais que
tratam com povos indígenas e outras
minorias étnicas.
As denúncias foram enviadas ao
Relator Especial da ONU sobre a situação
dos direitos humanos e liberdades
fundamentais dos povos indígenas, ao
Relator Especial da ONU sobre tortura
e outros tratamentos cruéis, desumanos
e degradantes, à Relatora Especial
da ONU sobre Defensores de Direitos
Humanos, ao Grupo de Trabalho sobre
Detenção Arbitrária e ao escritório do
Alto Comissariado das Nações Unidas,
em Genebra, na Suíça.
No mês de maio deste ano, o vicepresidente
da Comissão de Direitos
Humanos da Assembléia Legislativa da
Bahia, deputado Yulo Oiticica (PT), esteve
na comunidade Serra do Padeiro
para investigar denúncias de possíveis
ações de pistoleiros contra os indígenas.
Na ocasião, foram apreendidas
armas e munições abandonadas por
capangas que invadiram a aldeia em fevereiro deste ano.
De acordo com os Tupinambá os pistoleiros trabalham
para fazendeiros da região com o conhecimento
da Polícia Federal. “É importante que essa investigação
seja feita o mais rápido possível. As
armas encontradas provam que quem
deveria estar preso são pistoleiros,
não o cacique Babau”, afirmou o
deputado.
O material recolhido pela CDH -
cinco revólveres, uma pistola, uma
escopeta, uma carabina, um rifle e
munições com a inscrição “federal”
- foi entregue ao subsecretário de SSP, Ari Pereira. A comunidade
agora aguarda que as denúncias sejam apuradas
para que se confirmem as ações discriminatórias
Fonte: Jornal Porantin (junho/julho 2010)
Última atualização (Seg, 02 de Agosto de 2010 22:38)



